Toronto 2015

Ouvidos atentos também são diferencial no judô paralímpico

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Fernando Maia/MPIX/CPB
Karla Kardoso, campeã na categoria até 48kg.

Karla Kardoso, campeã na categoria até 48kg.

Modalidade praticada por deficientes visuais transforma a conexão entre técnico e atleta num mapa para a conquista de vitórias. Brasil fecha o primeiro dia com dois ouros e um bronze

Postados frente a frente, com a pegada do judô previamente estabelecida pelo árbitro para o início do combate, é óbvio que o sentido do tato seja preponderante na versão paralímpica da modalidade dos tatames. Mas, aliado ao trabalho das mãos na gola e nas mangas do rival, a audição ocupa função de destaque para o sucesso dos atletas. Na abertura do judô, no Parapan de Toronto, o Brasil conquistou dois ouros e um bronze, todos com meninas das categorias mais leves. Michele Aparecida Ferreira e Karla Cardoso souberam unir a técnica que trabalham até seis vezes por semana a uma "linha direta" com os treinadores da seleção, que ficam postados ao lado da área de jogo.

"Chega a ser uma coisa automática. A gente já tem isso mais aguçado. Eu esqueço tudo o que está em volta e fica como um canal direto com o que eles falam, com certeza", afirmou Karla, prata Paralímpica nas edições de Atenas, em 2004, e Pequim, em 2008, e vencedora em Toronto na categoria até 48kg. O pódio ainda teve a argentina Paula Gómez, prata, e a brasileira Luiza Oliano, bronze.

Rayfran Mesquista perdeu a semifinal e a disputa pelo bronze na categoria até 60kg. Foto: Fernando Maia/MPIX/CPB

"Acho que no judô é um conjunto, porque é movimento o tempo inteiro. A audição nos ajuda a prestar atenção às instruções do técnico, a ouvir e sentir o adversário. Todos os sentidos ficam alertas", afirmou Michele Aparecida Ferreira, que superou quatro adversárias, duas por punições e as duas últimas por imobilizações, para chegar ao ouro na categoria até 52kg. A prata ficou a canadense Priscilla Gagne e o bronze com a argentina Rocio Ledesma

Ainda um pouco chateado por não ter sido "ouvido" como gostaria nos combates da tarde, em que tanto Rayfran Mesquita quanto Mayco Souza caíram na semifinal e perderam em seguida a disputa do bronze, o técnico Alexandre Garcia explica que, diferentemente do judô olímpico, a orientação é liberada em 100% do tempo na versão paralímpica.

Rayfran Mesquista perdeu a semifinal e a disputa pelo bronze na categoria até 60kg. Foto: Fernando Maia/MPIX/CPB

"No Olímpico, o técnico só pode falar quando o árbitro para a luta. Aqui é liberado. É a hora que a gente tem de, narrando o que está vendo por eles, explicar ao atleta algo que ele não está fazendo, ou algo que está errando na movimentação, na pegada. Muitas vezes a gente monta uma estratégia para a luta, mas o adversário vem com uma posição ou nos impõe uma situação diferente. Aí temos de ser rápidos para pensar rapidamente uma outra estratégia", afirmou.

O bronze do dia ficou com Luiza Oliano, na categoria até 48kg. Nesta quinta-feira, quatro atletas brasileiros estão nas disputas. Abner Nascimento será o representante na categoria até 73kg. Lúcia Teixeira, prata nos Jogos Paralímpicos de Londres, defenderá o país na categoria até 57kg. Victoria Santos disputará entre os atletas de até 63kg e Harley Pereira tentará melhorar o bronze conquistado no Parapan de Guadalajara na categoria até 81kg.

Termômetro

A participação brasileira no Parapan é vista pelo coordenador da modalidade, Jaime Bragança, como um degrau necessário para expor os atletas a uma situação similar à que eles vão experimentar no Rio de Janeiro, no ano que vem.

"Como o Brasil já tem vaga em todas as categorias por ser o país-sede, não temos esse peso. O importante é termos a vivência de um evento no padrão paralímpico, com a Vila, o apartamento, o refeitório, a visibilidade. É importante para preparar todos psicologicamente, principalmente os mais novos da delegação", afirmou.

Nos Jogos de 2016, o Brasil sabe que terá páreos duros tanto contra países que têm histórico forte na modalidade olímpica, como Japão, Coreia e França, mas também em escolas fortes nos últimos tempos entre os paralímpicos. "O Uzbequistão revelou recentemente uma equipe completa e teve ótimos resultados no Mundial mais recente. A Geórgia tem um atleta na categoria mais pesada que é fora de série", disse Bragança. Alemanha e Rússia também são apontados pelos atletas como fortes concorrentes.

Michele Ferreira conquistou o ouro na categoria até 52kg. Foto:Fernando Maia/MPIX/CPB

Preparação consistente

Para garantir uma preparação nacional adequada, uma vez por mês são realizados treinamentos de uma semana com os atletas da seleção em um Centro de Treinamento na região da Mooca, em São Paulo.

Os deslocamentos estavam tão frequentes que Karla Cardoso preferiu mudar-se de vez para São Paulo e deixar família e filhos para amplificar as chances de ir bem em casa.

Segundo ela, o fato de ser contemplada pela Bolsa Pódio, do Governo Federal, foi decisivo para referendar a decisão. "É graças a ela que estou investindo só no judô. Os recursos ajudam a me sustentar em São Paulo. Lá estou perto da seleção, dos técnicos, e posso corrigir possíveis erros e aprimorar a minha técnica com mais qualidade", afirmou.

Para Michele Ferreira, que também recebe a Bolsa Pódio, o incentivo financeiro transformou sua relação com o esporte em algo mais profissional. "Hoje é meu trabalho. É disso que vivo", disse a atleta, que mora e treina em Campo Grande (MS) quando não está com a seleção Brasileira em São Paulo.

Dos 15 atletas do judô no Parapan, 13 recebem insumos do Ministério do Esporte. Seis são integrantes da Bolsa Atleta e sete recebem a Bolsa Pódio, que varia de R$ 5 mil a R$ 15 mil mensais e é voltada para atletas de destaque no ranking mundial de suas modalidades.

Infraestrutura

O Ministério do Esporte mantém, ainda, dois convênios ativos com o Comitê Paralímpico, que somam R$ 40 milhões. Um deles, de R$ 1,8 milhão, serviu para custear a participação brasileira no Parapan de Toronto.

O outro, no valor de R$ 38,2 milhões, é destinado à preparação e treinamento de seleções permanentes em 16 modalidades (atletismo, basquete em cadeira de rodas, bocha, ciclismo, esgrima em cadeira de rodas, futebol de 5, futebol de 7, goalball, halterofilismo, judô, natação, remo, rúgbi em cadeira de rodas, tiro esportivo, vela, e voleibol sentado) para o ciclo olímpico de 2016.

O convênio engloba custos de transporte terrestre e aéreo no Brasil e no exterior, hospedagens, alimentação, contratação de recursos humanos (coordenador de modalidade, técnicos, assistentes técnicos, psicólogo, fisioterapeuta, fisiologista, nutricionista, médico, massoterapeutas, mecânicos, preparador físico, árbitros, classificador funcional, delegado técnico, enfermeiro), aquisição de uniformes, materiais e equipamentos esportivos.

www.brasil2016.gov.br
Gustavo Cunha, de Toronto - Brasil2016.gov.br

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