Toronto 2015

Referência mundial, goalball brasileiro alia teoria e prática para se desenvolver

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Gabriel Fialho/ME
Owan Parkin, ao lado do pai: goalball despertou o interesse do garoto canadense de 13 anos.

Owan Parkin, ao lado do pai: goalball despertou o interesse do garoto canadense de 13 anos.

Equipes masculina e feminina fecharam primeira fase do Parapan com 100% de aproveitamento

O silêncio na quadra é total. O jogo se desenvolve ao som do guizo colocado dentro da bola. Mas naqueles fones a partida ia sendo construída em palavras. Cada movimento era descrito com precisão e o pequeno Owan Parkin, 13 anos, montava o panorama da disputa. Ao lado do pai, ele estava na arquibancada do Centro de Esportes Mississauga acompanhando as disputas do goalball dos Jogos Parapan-Americanos de Toronto pelo serviço de audiodescrição disponibilizado no ginásio.
“Eles explicam o que acontece na quadra, os pênaltis, o que as pessoas estão fazendo, onde a bola está”, conta o canadense Owan, que nasceu cego devido a uma doença rara. No colégio, ele já teve contato com algumas práticas esportivas, além de ser encorajado pelo pai, Scott Parkin, a praticar esportes. Mas no Parapan, o que ele tem acompanhado é o goalball. “Imagino que seja um esporte divertido de jogar”, conta cheio de expectativas, já que a modalidade estará no currículo escolar dele este ano.

Uma oportunidade para Owan aprofundar o contato com um esporte que mudou a perspectiva de vida de pessoas como Victoria Nascimento, da seleção brasileira feminina. “O goalball supriu uma necessidade dentro de mim. Eu perdi a visão com 11 anos, numa fase da infância de brincar. Comecei a jogar, a viver mais, conhecer lugares novos e a falta da visão não foi tão forte”, descreve a jogadora, que antes de conhecer o esporte não tinha a mesma disposição em sair de casa.

“Comecei a jogar porque não tinha nada para fazer e me descobrir no esporte”, confessa Victoria, para acrescentar que sua percepção sensorial melhorou com a modalidade. “O goalball é maravilhoso porque faz você ter noção espacial e a audição melhora. No meu caso, ainda é uma forma de expor meu sentimento, seja raiva, ou alegria. Eu coloco tudo para fora em quadra”.

História semelhante à de Ana Carolina Custódio, que também conheceu o goalball enquanto estudava no Instituto Benjamim Constant, no Rio de Janeiro, e que encontrou no esporte uma forma de inclusão. “Quando fiquei cega, pensava que não podia fazer nada. Meu sonho de ser bailarina foi por água abaixo, mas percebi que com o goalball a gente pode romper esse limite que a gente acha que tem”, contou a jogadora da seleção após a vitória contra a Guatemala por 10 x 0 no encerramento da fase de grupos, nesta quarta-feira (12.08). Equipe adversária que será a mesma da semifinal, marcada para sexta-feira (14.08).

Prata no Parapan de Guadalajara 2011, Ana Carolina confia em um resultado melhor desta vez. “Nós mostramos que podemos conseguir. Tivemos jogos difíceis contra os Estados Unidos e o Canadá, mas ganhamos delas”. Os dois países da América do Norte fazem a outra semifinal e perderam para o Brasil na primeira fase por 3 x 1.

Meninas da Seleção Brasileira vão buscam em Toronto a medalha de ouro que escapou no Pan de Guadalajara. Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB

No sangue

Enquanto as meninas buscam o topo do cenário mundial do goalball, a equipe masculina já coleciona alguns importantes feitos, como o título mundial de 2014, a prata nos Jogos Paralímpicos Londres 2012 e o ouro na última edição do Parapan.

Um dos destaques do time, Leomon Moreno da Silva carrega apenas as iniciais nas costas da camisa. Uma forma de homenagear os irmãos Leonardo e Leandro, também deficientes visuais, e que já integraram a equipe ao lado dele. “Conheci o goalball por eles. Levava os dois para os treinos, porque enxergava mais. Ficava com vontade de jogar, mas ainda não tinha idade”, recorda.

Com a vitória de hoje por 12 x 2 sobre o Canadá, o Brasil também conquistou 100% de aproveitamento na fase de classificação do masculino. Os adversários da semifinal serão os argentinos, no mesmo dia da disputa feminina.

Modelo

Exclusivo dos Jogos Parapan-Americanos e das Paralimpíadas, o goalball ainda não é muito conhecido no Brasil, mesmo o país sendo uma referência. Ações fora das quatro linhas, realizadas pela seleção brasileira, buscam divulgar o esporte. Em Jundiaí (SP), local de treinamentos da equipe masculina durante 15 dias por mês, os atletas e comissão técnica vão às escolas incentivar a prática da modalidade, segundo o treinador Alessandro Tosin.

Professor de educação física em uma universidade, ele promove campeonatos de goalball com os alunos, mesmo aqueles que não são deficientes. “No Brasil a gente não tem muito essa cultura, mas na Europa muitas pessoas jogam goalball com os atletas deficientes. O que faço é promover alguns torneios internos com os alunos e entre faculdades. Isso ajuda a divulgar o esporte e as pessoas passam a jogar”.

O treinador conheceu o goalball quando ainda era estudante e fez estágio em uma instituição voltada para deficientes visuais. De 2001 para cá não parou mais de estudar, pesquisar e escrever sobre a modalidade. Conhecimentos que ele leva para a quadra. “Quando você começa a associar teoria e prática, dá resultado. Todo nosso treinamento é embasado teoricamente. Nós temos o Altemir, que é o analista de desempenho. Temos dados de todas as fases de treinamento, sabemos quantas bolas foram no alvo, quantas foram retidas”, explica.

Os dados ainda servirão para futuras pesquisas sobre o esporte. Na partida contra os canadenses, a seleção teve 94% de bolas no alvo, quando o arremesso obriga o adversário a defender com a mão ou com o pé fora da demarcação da área de defesa. “Não é qualquer equipe no mundo que faz isso. Estamos coletando essas informações, para formar um software, que vai virar uma publicação. A gente vai o tempo todo aprimorando e sempre buscando a máxima excelência”, afirma Tosin.

A análise e o trabalho tático, no entanto, não significam um engessamento do jogo. O treinador conta que a primeira noção transmitida aos atletas é para que “brinquem” de goalball. “Eles são muito inteligentes e em cima disso construímos algumas ações. A gente deixa eles brincarem, porque a criatividade faz parte desta inteligência. A ideia é que eles se movimentem. Dificilmente você encontra cegos se movimentarem de um lado para o outro como eles. Depois vamos fazendo as ações táticas e eles ficam com um volume grande de jogo”.

Os investimentos realizados pelo Ministério do Esporte, os recursos advindos da Lei Agnelo/Piva e o apoio do Comitê Paralímpica Brasileiro (CPB) são os outros fatores apontados pelo técnico para o alto desempenho da equipe. “Hoje, sem dúvidas, somos uma referência no goalball, mas porque temos condições de treinar fora das fases específicas de preparação. A continuidade gera a manutenção da performance, o que é decisivo em uma competição como essa”.

O goalball tem 42 desportistas contemplados com a Bolsa-Atleta em todo o país, dentre eles 11 dos 12 participantes do Parapan-Americano de Toronto. O Ministério do Esporte ainda tem convênio com o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que somados ultrapassam R$ 40 milhões, para a preparação das equipes visando ao ciclo paralímpico de 2016 e à participação nos Jogos de Toronto 2015.

Seleção masculina está com 100% de aproveitamento e vai atrás de mais um título. Foto: Guilherme Taboada/CPB

A modalidade

Praticado exclusivamente por pessoas com deficiência visual, o goalball está, ao lado da bocha, entre as únicas modalidades paralímpicas que não têm uma versão correspondente no programa olímpico. O jogo reúne atletas com diferentes graus de deficiência (BC1, BC2 e BC3), mas que sempre usam vendas nos olhos, a fim de que as duas equipes rivais disputem em condição de igualdade.

A quadra que recebe a disputa tem as mesmas dimensões da de vôlei, com 9m de largura e 18m de comprimento. Cada partida tem dois tempos com duração de 12 minutos cada, com três minutos de intervalo. São três jogadores em cada time, além de outros três reservas. O gol, bem amplo, tem a mesma largura da quadra, com 1,30m de altura.

Durante o jogo, os atletas, que atuam como arremessadores e defensores ao mesmo tempo, precisam lançar a bola rasteira ou tocando em uma das áreas obrigatórias. Dentro da bola há um guizo que emite som para orientar os atletas cegos e, por isso, todo o público deve permanecer em silêncio durante o jogo.

www.brasil2016.gov.br
Gabriel Fialho, de Toronto - Ministério do Esporte

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